quarta-feira, janeiro 21, 2004

Caminhos


Foto de Ana Pinto


Sei que um dia, quando eu for embora, a única bagagem que levarei serão os amores que tive. As tristezas que vivi e causei, as alegrias exageradas que experimentei, as saudades, as paixões. Tudo isso deixarei em um armário, em uma rodoviária distante e esquecida. Levarei apenas os meus amores. Aqueles que me fizeram desejar ser melhor, os que me ensinaram a crescer, mesmo com dor. Os que me mostraram sabores, cores, odores. Os que revelaram o melhor e o pior de mim. Serão minha única bagagem. Embalados um a um, com carinho e cuidado. De vez em quando, em minha longa caminhada, tirarei um da mochila, apertarei contra o peito, até sentir aquecido o coração, e seguirei caminhando.

Obrigada, tio Rui, pela emoção que você me fez viver hoje.

Angeli









terça-feira, janeiro 20, 2004

Pérolas bancárias

Eu não ia escrever nada hoje. O trabalho está corrido, muita coisa para fazer...mas algumas coisas precisam ser registradas, guardadas para a posteridade...observem o trecho negritado na matéria abaixo, retirada do jornal Correio Braziliense...

Banco Popular começa a abrir conta na próxima semana
13h43 - O BPB (Banco Popular do Brasil) começa a abrir conta corrente para o público informal, ou seja, sem carteira assinada, na próxima semana. A estimativa é que as operações sejam inauguradas no dia 29.

Será o primeiro passo do plano de operação da subsidiária do Banco do Brasil --criada para atender o público informal e de baixa renda--, que começa a funcionar em caráter experimental este mês em Brasília (DF), São Paulo (SP) e Recife (PE).

A projeção é que o BPB dê início às suas operações comerciais em escala nacional em março, quando a campanha de mídia da instituição entrar no ar. A Conta Popular do Brasil vai concorrer diretamente com a conta Caixa Aqui, da Caixa Econômica Federal, voltada para o público de baixa renda.

Como sua concorrente, a Conta Popular do Brasil poderá ser aberta sem depósito mínimo e sem comprovação de renda. Até os sem-teto poderão ter uma conta, já que para ser correntista basta apresentar uma declaração de endereço para recebimento de correspondência. O presidente do BPB, Ivan Guimarães, disse que o futuro correntista do banco não precisará nem de CPF (Cadastro de Pessoa Física) para abrir a conta. "O banco emitirá o CPF para os correntistas que não tiverem o documento". O BPB pretende abrir 1 milhão de contas correntes até dezembro. Até o final de 2008, o banco quer contar com 4,7 milhões de clientes.

Apesar das metas ambiciosas, Guimarães disse que o BPB não tem pressa para alcançar esses números. "As coisas bem feitas são lentas. Nossa maior preocupação é garantir a segurança das operações do banco".

O BPB prestará atendimento para seus correntistas somente por meio de correspondentes bancários --estabelecimentos comerciais credenciados junto ao BB para prestar alguns serviços de banco. A meta é contar com uma rede de 4.500 pontos de atendimento até final de 2004.

Entre os serviços que devem ser oferecidos pelo BPB estão fundos de investimentos, seguros, títulos de capitalização e crédito pessoal.

Da Folha News

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Espera um pouquinho: o indivíduo não é sem-teto??? O que vai estar escrito nessa declaração de residência?? Rua Nada, número 0. Lembrei aquela musiquinha: "...na rua dos bobos, número zero".

Misericóóórdia!!!!

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Finde

O que fiz no final de semana? Aqui em Brasília está chovendo praticamente doze horas por dia. Planejei ir comer um sushi no restaurante da Lê, na Quituarte, mas a chuva não deixou. Isso foi na sexta. De lá para cá:

- reli umas partes de um livro que eu adoro e recomendo: "O Homem Que Comeu de Tudo", de Jeffrey Steingarten;



- vi dois filmes dos quais não gostei muito: "Pão e Tulipas" e "A Professora de Piano". O primeiro eu achei meio repetitivo, tipo "já-vi-essa-cena-antes-em-outros-filmes". O segundo achei violento demais. Que mulher maluca era aquela?;

- no domingo, assisti ao jogo da seleção (sim, eu gosto e ainda acredito!!!);

- ao meu último vício televisivo, que eu não tenho perdido por nada, Queer Eye for a Straight Guy. Muito bom, morro de rir;

- a um pedaço daquela obra que homenageia a estupidez humana e que se chama Big Brother Brasil 4 ( me interrogando por que aqueles barracos ainda me prendem a atenção. Será que sou estúpida tbm? Céuuuuus);

- à entrevista da Luciana Vendraminni para a Marília Gabriela. Fiquei bege, passada. Dez horas tomando banho? Vinte e seis horas parada em uma calçada? O que é isso? Esses tais de TOC são mesmo impressionantes.

E foi só.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Giracaco

Ai, ai...hoje fui ao mocinho doutor que cuida do Rubens e da Fatinha (meus dois neurônios). Começo a ficar preocupada: nenhum mocinho de branco quer se responsabilizar pelos dois. O de hoje, que eu adoro de paixão, mandou-me para um outro. Quando ele me disse a especialidade do outro, imediatamente me lembrei daqueles chicletes que vinham com figurinhas de bichinhos misturados, tipo girafa + macaco= giracaco. Hehehehe...e o que é a modernidade. O outro mocinho doutor é um neuroendocrinologista. Se pudesse escolher, eu queria um neuroendocrinoginecopodólogo. Aí sim, ficava de bom tamanho!!!

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Grupo de auto-ajuda

Alguém pode me dizer quem compõe um grupo de auto-ajuda? Eu e as minhas personalidades múltiplas?

Caco Galhardo

Sabe aquele spam "Aumente o tamanho do seu pênis"? O Caco Galhardo escreveu este texto hilário:

AUMENTE O TAMANHO DO SEU PÊNIS!

Quem nunca recebeu um spam com esse título que atire a primeira pedra. Já virou um clássico da Internet: Aumente seu pênis. Acho que pelo menos uma vez por semana recebo um spam desses. Fico imaginando como entrei no mailing dessa empresa. Será que fui indicado por alguma amiga? Uma que tenha se decepcionado com o tamanho do meu pênis? Nunca tive reclamações e para falar bem a verdade, confesso que estou satisfeito com o tamanho do meu pênis (exceto após mergulhos em piscinas geladas). Então, por que tantos spams? Acho que vou começar a responder. Caro senhor, por favor, exclua-me de seu mailing, pois estou satisfeito com o tamanho do meu pênis!!!

Esses spams estão causando efeito contrário. Ao invés de aumentar o pênis, estão aumentando o saco. É que a cada vez que abro o spam, meu saco vai ficando mais cheio, pra dizer a verdade, já está arrastando no chão. Não preciso mais de spams de "Aumente o tamanho do seu pênis", e sim de "Diminua o tamanho do seu saco"! Haja!

É humilhante, acho que vou processar essa empresa por desacato. Está pensando o quê, que meu pau é pequeno?! Já fiquei ofendido. Então vou botar a empresa no pau. No pau não, no pauzão, que é para combinar com o produto!

Quem será que compra essas bombinhas para aumentar o tamanho do pênis? É deprimente. Na portaria do prédio:

- Seu Caco, chegou encomenda para o senhor. - Encomenda? - Está aqui, produto para aumentar o pênis. - Ah sei: é que encomendei para meu avô - Tô sabendo, seu Caco, tô sabendo! E a patrôa, vai bem?

Deus que me livre! E vai que dá zica. Sei lá, e se ao invés de aumentar, estoura? Pênis estourado! Tô fora! Não aguento mais esses spams, deixa o tamanho do meu pênis assim que já está bom demais! E tenho dito! Só queria saber quem foi a maldita que me pôs nessa lista!! É isso, feliz ano novo, muito amor, muita paz, muita saúde e muito pênis em 2004!

Jacques Prévert

Sempre fui apaixonada pelas poesias desse homem. Ele tem uma acidez quase inocente, infantil. Esta foi a primeira poesia dele que me caiu nas mãos. Desde então, sou uma voraz devoradora da sua obra...



O gato e o pássaro

Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro pára de cantar
O gato pára de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Maravilhosos funerais
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Sentiria apenas tristeza e saudades

Não se deve deixar as coisas pela metade.

Tortura Medieval

Em um momento de desvario, entrei em um clínica de tratamento estético e comprei um pacote de massagem estética + estimulação russa + endermologia. E ainda fiquei feliz da vida, contando os dias para começar o "tratamento". Triste ilusão...gosto de ver como ainda sou inocente em certos aspectos.

No primeiro dia, empolgação total. A mocinha da massagem com uma carinha bem boazinha, pediu para eu tirar a roupa e deitar em uma caminha bem perfumadinha e...em questão de segundos, a governanta alemã que vive nela tomou posse daquele corpo. Tive a oportunidade de me sentir exatamente como uma massa e nunca, garanto a vocês, nunca o nome "pão sovado" fez tanto sentido para mim. Depois veio a tal de "estimulação russa", umas plaquinhas que dão um choque angustiante. Pensei em comunas, socialismo, Lênin, princesa Anastasia e concluí que o nome não poderia ser tão apropriado. Passei o resto do dia tomando choques retardados, que nem desenho animado.

O segundo dia, que foi hoje, já me encontrou veterana na arte de apanhar sem reclamar. Tirei a massagem de letra, a não ser por uma dor lacinante em algum lugar na parte interna da coxa direita (desculpem os detalhes, mas uma dor assim sempre vem com nome, telefone e endereço). A sádica da massagista (brincadeirinha, ela é um amor!) havia reservado, no entanto, uma das piores torturas: endermologia. Devia ser endemoniologia (essa máquina fez mal para os meus neurônios...ai...). É uma coisa inexplicável: uma máquina com uma extensão, que parece uma mão. A sádica ligou a máquina, ajustou o nível de sucção (sim, queridos, a máquina suga) e grudou na minha pele. Qualquer um perceberia que ali estava ocorrendo uma tentativa clara de arrancar a minha pele. Mas eu não pude fazer nada além de dar uns gemidos, e abafados, para não pagar mico na clínica. E eu paguei por isso...

Portanto, depois de ser sovada, eletrocutada, amassada, sugada e despelada, juro solenemente:

1º Nunca mais tomar refrigerante
2º Beber pelo menos dois litros de água por dia
3º Maneirar na comida, principalmente na massa
4º Fazer caminhadas regularmente

Não é falta de fé na humanidade não, mas vamos ver até onde isso vai durar...por enquanto, a lembrança da dor me aterroriza o suficiente para ver um banquete em uma folha de alface...

terça-feira, janeiro 13, 2004

Princípio da Reciprocidade

Olha só: meus instintos mais primitivos se deliciaram com o fichamento dos turistas americanos. O gorila pré-histórico que habita as cavernas do meu ser saiu, tacape em mãos, comemorando o tal do princípio da reciprocidade. Mas logo foi recapturado pelo domador que instalei na minha placa-mãe. E a civilidade voltou a imperar.

É claro que os EUA têm o direito de se protegerem, mas essa desculpa só começou a pegar do 11 de setembro para cá. Vamos revirar arquivos e encontrar "n" relatos de turistas, brasileiros ou não, que foram constrangidos pelo controle de imigração estadunidense muito antes dos atentados terroristas. É verdade, também, que isso não acontece apenas nos EUA. Já vi pessoas sendo muito mal tratadas em aeroportos de países da Europa.

O Brasil, por sua vez, sempre levou a fama de ser uma mãe para os turistas estrangeiros. Até nos assaltos eles levam a a preferência (ops, falha do domador...ironia pré-histórica...). E é essa a realidade. Vi o mocinho lá do Rio desesperado porque os turistas americanos iam sumir, levando os tais de R$2.000.000.000 que eles despejam todos os anos em terras cariocas (que, por sinal, significa "casa do homem branco"...sacaram a sutileza??...hehehe). Por isso, as autoridades decidiram: os turistas do Tio Sam vão ser fichados, mas receberão, depois, mimos e afagos de mulatas (tipo exportação, of course).

Resumindo: os EUA realmente se julgam o umbigo limpinho do mundo, mesmo que o mundo inteiro saiba que eles estão muito longe disso em vários quesitos. Os brasucas são mal vistos em terras estadunidenses (com honrosas exceções, of course), mas o Brasil não pode abrir mão do turismo. A solução? Ué, e alguém achou que eu tivesse a solução? Se eu a tivesse, não estaria aqui trabalhando. Estaria jogando golfe com Bush, em uma de suas fazendas...just kidding...

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Terra de ninguém

Uma das coisas que aprendi nesses 34 anos foi tentar entender o papel de algumas pessoas na minha vida. Coraçãozinho é terra de ninguém, já disseram com muita propriedade.

Algumas pessoas entram sem avisar, sem pedir licença, jogam papel de bala no chão, falam alto, desrespeitando momentos de quietude, abrem a geladeira sem a menor cerimônia. E saem sem fazer a cama, sem lavar a louça, sem tirar a poeira.

Outras não...outras entram com delicadeza, abrindo a porta o suficiente para fazer tocar o sino de vento. Sentam na beiradinha da cama, tiram da mala um velho porta-retrato e ajeitam um canto para ele na mesinha de cabeceira. Enchem a casa-coração de girassóis e perfumam o ar com alecrim. E, quando menos esperamos, estão andando pelos cômodos, arrastando pantufas de plumas...

São assim as pessoas que eu amo...



Nós e laços

Eu estava com uns pedaços de fio nas mãos e observei uma coisa: se unirmos dois pedaços com um nó e depois puxarmos as perninhas dos fios, o nó fica mais apertado. Mas, se dermos um laço, os fios se separam, suavemente.

Simples, não? É assim que fazemos na vida. Às vezes, usamos um nó para unir nosso caminho ao caminho de outras pessoas. Se, por um acaso, os caminhos tomam direções opostas, esse nó aperta, machuca, e nós não permitimos que essas pessoas saiam da nossa vida. Se usássemos um laço, a separação seria mais suave. Cada qual seguiria seu caminho.

Coisas a aprender em 2004: mais laços e menos nós...

Uma historinha de amor

Biblioteca da Universidade de Brasília. Acho que em 1989 ou
1988. Eu namorava um chileno, estudante de Engenharia Florestal, lutador de caratê e que desenhava duendes e fadinhas lindamente. Mas apareceu aquele estudante de Letras, assim como eu,
na minha turma de Língua Portuguesa 5. E ele era lindo, inteligente, melancólico. Tudo o que uma apaixonada por literatura procurava em um ser humano. E nós fomos fazer um trabalho juntos. Nós e mais umas cinco pessoas. O meu namorado foi se despedir. Ele ia para um acampamento da facu. E eu fui procurar um dicionário com o meu poeta. Eu estava agachada, procurando o tal dicionário nas prateleiras de baixo. E ele de repente me abraçou e me beijou. Os lábios dele tremiam, e eu entendi todas as julietas, as isoldas, as camilas, as carolinas, as lúcias. E
aquele beijo durou um minuto de eternidade (e dura até hoje).
E as pessoas que estavam na biblioteca aplaudiram. E eu caí sentada no chão.

Acabei com o chileno. Comecei a namorar o meu poeta. E foram
muitos meses de sonetos, brigas, ciúmes e muito amor. E ele me dava livros e escrevia dedicatórias lindas e engraçadas.

Dez anos depois, eu o encontrei em um cursinho preparatório
para concursos. Sentei ao lado dele e não me dei conta disso.
No intervalo, ele me chamou e eu quase enfartei. Era ele.
Igualzinho à minha lembrança. Casado, pai de dois filhos, professor universitário.
E disse que a maior lembrança que tinha de mim era o jeito que eu prendia o cabelo
e mexia na minha bolsa de dança, enorme. E todo o meu amor daquele tempo voltou.
Conversamos bobagens. E nos perdemos de novo.

Moral da história: príncipes deviam ter prazo de validade!